Evolucionismo e Fixismo

Fixismo: a ideia de espécies imutáveis

Fixismo — doutrina segundo a qual as espécies de seres vivos foram criadas exatamente como se apresentam atualmente e permanecem imutáveis ao longo do tempo, não sofrendo transformação numa outra espécie.

Esta doutrina dominou o pensamento sobre a diversidade da vida até ao século XIX e assentava, em grande parte, numa visão criacionista: os organismos teriam sido criados por um poder divino, cada um já adaptado ao seu ambiente e às suas funções, sem margem para alteração.

Carl von Linné (Lineu), criador do sistema de classificação binomial, é um dos principais representantes desta visão: o seu sistema hierárquico tratava as espécies como categorias fixas e essencialmente imutáveis desde a criação.

Georges Cuvier, fundador da anatomia comparada e da paleontologia de vertebrados, defendeu o fixismo com um argumento diferente, de tipo funcional: a chamada correlação das partes. Segundo Cuvier, a forma de um organismo resulta de uma coordenação necessária entre estrutura e função, pelo que qualquer transformação de um plano corporal o tornaria disfuncional — e, portanto, impossível. Cuvier defendia ainda que os grandes planos corporais (vertebrados, moluscos, articulados, radiados) eram autónomos entre si, não permitindo formas de transição.

Um erro comum é pensar que o fixismo negava toda e qualquer mudança no mundo natural, incluindo a extinção. Na realidade, Cuvier aceitava a extinção, documentada pelos fósseis — o que recusava era que uma espécie se transformasse noutra: a fixidez aplicava-se à identidade das espécies, não à história geológica da Terra.

O catastrofismo de Cuvier

Catastrofismo — teoria geológica proposta por Cuvier segundo a qual a Terra foi moldada por catástrofes súbitas e violentas (grandes inundações, cataclismos) que dizimavam a fauna e a flora de uma região, substituída depois por novas formas de vida vindas de outras zonas, sem que isso implicasse transformação evolutiva.

Cuvier foi o primeiro cientista a documentar rigorosamente a extinção de animais — nomeadamente fósseis de grandes vertebrados hoje extintos, como mamutes na bacia de Paris —, o que representava um desafio à ideia de uma criação estática. Para conciliar esta evidência com o fixismo, propôs que sucessivas catástrofes geológicas locais eliminavam a vida existente numa região, que era depois repovoada por migração de espécies vindas de zonas não afetadas — mantendo-se, ainda assim, cada espécie fixa e imutável.

O catastrofismo opõe-se ao uniformitarismo/gradualismo geológico defendido posteriormente por Charles Lyell, que viria a influenciar diretamente Charles Darwin.

O evolucionismo antes de Darwin

Evolucionismo/transformismo pré-darwiniano — conjunto de ideias, anteriores a Darwin, que defendiam que as espécies não são fixas e se transformam ao longo do tempo, dando origem a novas espécies a partir de ancestrais comuns.

Antes de Darwin, vários naturalistas propuseram, com diferentes graus de coerência, que as espécies mudam. Georges-Louis Buffon inicialmente rejeitou o transformismo, mas mais tarde admitiu que as espécies podiam "degenerar" sob a ação do ambiente, e propôs uma idade da Terra muito superior aos cerca de 6000 anos aceites pela cronologia bíblica — criando, assim, tempo suficiente para mudanças graduais.

Jean-Baptiste Lamarck formulou, em Philosophie Zoologique (1809), a primeira teoria coerente e global de transformação das espécies. Outros nomes relevantes são Erasmus Darwin (avô de Charles Darwin) e Robert Chambers, cuja obra Vestiges of the Natural History of Creation (1844) popularizou ideias evolucionistas junto do público, antes mesmo da publicação de A Origem das Espécies.

Um erro comum é pensar que Charles Darwin foi o primeiro a propor que as espécies mudam ao longo do tempo. Na realidade, essa ideia já circulava há décadas antes dele; a contribuição original de Darwin foi propor a seleção natural como mecanismo explicativo, sustentado por vasta evidência.

AspetoFixismoEvolucionismo pré-darwiniano
Natureza das espéciesFixas e imutáveis desde a criaçãoTransformam-se ao longo do tempo a partir de ancestrais comuns
Principais autoresLineu, CuvierBuffon, Lamarck, Erasmus Darwin, Chambers
Explicação da extinçãoAceite (Cuvier), mas sem transformação — repovoamento por migraçãoIntegrada num processo mais amplo de transformação das linhagens
Argumento centralCorrelação das partes / classificação tipológicaAção do ambiente induz mudança gradual nas espécies

As evidências da evolução biológica

Evidências da evolução biológica — conjunto de dados de diferentes áreas científicas (paleontologia, anatomia comparada, embriologia, bioquímica e biologia molecular, citologia, biogeografia) que, em conjunto, sustentam a ocorrência da evolução e a existência de ancestralidade comum entre os seres vivos.

Cada uma destas áreas fornece um tipo de argumento diferente, mas todas convergem para a mesma conclusão: as espécies atuais descendem, com modificação, de antepassados comuns.

Evidências paleontológicas

Evidências paleontológicas — dados obtidos a partir do registo fóssil que documentam seres vivos diferentes dos atuais, a sua sucessão ordenada ao longo do tempo geológico e a existência de formas de transição entre grandes grupos.

O registo fóssil é a única fonte direta de informação sobre organismos do passado. Sustentam a evolução três ordens de argumento: primeiro, os fósseis mostram formas de vida hoje extintas, incompatíveis com um conjunto de espécies criado de uma vez e imutável; segundo, a distribuição dos fósseis pelos estratos sedimentares é ordenada — grupos mais simples surgem em estratos mais antigos, formas mais recentes em estratos mais superficiais, permitindo reconstituir séries filogenéticas, como a clássica sequência dos equídeos (redução do número de dedos, aumento do tamanho corporal ao longo do Cenozoico); terceiro, existem formas de transição, com caracteres simultâneos de dois grupos distintos. O caso mais estudado é Tiktaalik roseae, um fóssil do Devónico superior cuja barbatana peitoral tem um conjunto expandido de ossos endocondrais distais e articulações sinoviais, permitindo posturas de apoio no substrato semelhantes às de um membro — evidência direta da transformação de barbatanas em membros de tetrápode.

A fossilização é um processo raro e enviesado (favorece organismos com partes duras e ambientes de sedimentação específicos), pelo que a ausência de fósseis para certas transições é estatisticamente esperada — e não uma refutação da evolução; novas formas de transição continuam a ser descobertas, muitas vezes previstas com sucesso (foi o caso de Tiktaalik, encontrado numa procura dirigida a estratos de idade e ambiente previamente previstos). Importa ainda não confundir uma série filogenética fóssil com uma linha reta de antepassado-descendente: as séries reconstituem tendências dentro de um grupo ramificado, não uma escada linear de progresso.

Evidências anatómicas: órgãos homólogos, análogos e vestigiais

Órgãos homólogos — estruturas com o mesmo plano de organização interna e a mesma origem embrionária, ainda que desempenhem funções diferentes.

Órgãos análogos — estruturas com função (e por vezes forma) semelhante, mas com organização interna e origem embrionária distintas.

Órgãos vestigiais — estruturas reduzidas e sem função aparente, que só se compreendem como remanescentes de estruturas funcionais em antepassados.

O exemplo canónico de homologia é o membro anterior dos tetrápodes — braço humano, pata anterior do gato, barbatana da baleia, asa do morcego —, todos com a mesma sequência úmero–rádio/cúbito–carpais–metacarpais–falanges. Já a asa do inseto e a asa da ave, ou a asa do morcego e a asa da borboleta, são análogas: função semelhante, origens evolutivas distintas. São exemplos de órgãos vestigiais o apêndice vermiforme e o cóccix no ser humano, os restos de cintura pélvica e de membros posteriores em serpentes e cetáceos, e as asas atrofiadas de aves não voadoras.

A homologia e a analogia são relativas ao caráter considerado: as asas de aves e de morcegos são análogas enquanto asas (penas ao longo do braço versus membrana de pele entre os dedos), mas homólogas enquanto membros anteriores, porque ambos herdaram o antebraço de um ancestral comum.

Tipo de órgãoOrigem/plano de organizaçãoFunçãoExemplo
HomólogoComumPode ser diferenteMembro anterior de ser humano, gato, baleia e morcego
AnálogoDistintaSemelhanteAsa de inseto e asa de ave
VestigialComum (remanescente ancestral)Reduzida ou ausenteApêndice vermiforme; cintura pélvica em pitões

Erros frequentes: confundir homólogos com análogos, tomando a semelhança funcional como indicador de parentesco — o critério decisivo é o plano de organização interna e a origem embrionária, não a função; e interpretar "vestigial" como "completamente inútil", quando uma estrutura vestigial pode conservar funções secundárias sem que isso invalide o argumento evolutivo.

Evidências embriológicas

Evidências embriológicas — semelhanças acentuadas entre os estádios iniciais do desenvolvimento embrionário de espécies diferentes, tanto maiores quanto mais próximo é o parentesco evolutivo, interpretadas como herança de um programa de desenvolvimento comum.

Todos os embriões de vertebrados atravessam uma fase em que apresentam caracteres comuns que depois desaparecem ou se transformam: arcos e fendas faríngeas, notocorda, cauda pós-anal e um coração tubular com circulação simples. Estes caracteres persistem no adulto de uns grupos (as fendas faríngeas originam brânquias nos peixes) e são remodelados noutros (nos mamíferos originam estruturas do ouvido médio, da laringe e do timo). Estudos de transcritómica comparada em vertebrados (ratinho, galinha, rã e peixe-zebra) mostraram que o estádio faríngeo é aquele em que os perfis de expressão génica são mais conservados entre espécies, enquanto os estádios anteriores e posteriores divergem mais — o chamado modelo da ampulheta do desenvolvimento.

Esta evidência não implica a antiga "lei biogenética" de Haeckel ("a ontogenia recapitula a filogenia"), hoje rejeitada: o que existe é conservação de estádios embrionários partilhados, não repetição das formas adultas dos antepassados. É também um erro afirmar que os embriões humanos têm "brânquias" — têm arcos e fendas faríngeas, as mesmas estruturas embrionárias a partir das quais se formam brânquias nos peixes, mas que nos mamíferos originam estruturas diferentes.

Evidências bioquímicas e moleculares

Evidências bioquímicas e moleculares — universalidade do DNA como suporte da informação hereditária, universalidade (quase absoluta) do código genético, partilha das mesmas biomoléculas e vias metabólicas, e correspondência entre o grau de semelhança de sequências de DNA/proteínas e o grau de parentesco evolutivo.

Todas as células conhecidas armazenam a informação hereditária em DNA de cadeia dupla, usam os mesmos quatro nucleótidos, transcrevem para RNA e traduzem para proteína com o mesmo código genético, com ribossomas de estrutura conservada, usam ATP como moeda energética e partilham famílias de proteínas e vias metabólicas fundamentais. Esta universalidade é o argumento mais forte a favor de um antepassado comum a toda a vida: se cada espécie tivesse sido criada de forma independente, não haveria razão para que o código genético fosse partilhado — é essa universalidade que torna possível, por exemplo, exprimir um gene humano numa bactéria.

Comparando sequências homólogas de DNA ou de aminoácidos de proteínas em muitos grupos, o número de diferenças é tanto menor quanto mais próximo é o parentesco evolutivo, o que permite construir e testar hipóteses filogenéticas. As diferenças acumuladas interpretam-se como mutações fixadas no DNA desde a divergência a partir do antepassado comum.

Um erro comum é assumir que o código genético é rigorosamente universal sem exceção — existem pequenos desvios documentados (por exemplo, em mitocôndrias e em alguns protistas), o que reforça, em vez de enfraquecer, o argumento evolutivo, por corresponderem a modificações posteriores de um código ancestral partilhado. É também um erro confundir percentagem de semelhança de DNA com semelhança de aspeto ou de complexidade dos organismos: a semelhança molecular mede parentesco evolutivo, não semelhança morfológica.

Evidências citológicas

Evidências citológicas — todos os seres vivos são constituídos por células, que partilham uma organização básica e uma ultraestrutura comuns (membrana plasmática, citoplasma, material genético em DNA, ribossomas), apesar da enorme diversidade dos organismos.

Se cada espécie tivesse surgido de forma independente e imutável, não haveria razão para que todas partilhassem o mesmo tipo de unidade básica. A comparação ao nível da ultraestrutura mostra organelos com organização conservada em grupos muito afastados, e quanto mais próximos filogeneticamente são dois grupos, mais próxima é a organização celular. Esta categoria de evidência liga-se ao modelo endossimbiótico: as semelhanças entre mitocôndrias e cloroplastos e as bactérias (DNA circular próprio, ribossomas de tipo procariótico, divisão independente, dupla membrana) são simultaneamente evidência citológica de ancestralidade comum e fundamento desse modelo para a origem das células eucarióticas.

Evidências biogeográficas

Evidências biogeográficas — a distribuição geográfica das espécies, atuais e fósseis, só encontra explicação satisfatória à luz da evolução: as espécies de uma região são tipicamente aparentadas entre si e com as das regiões vizinhas, e o grau de isolamento geográfico de um território determina o grau de originalidade da sua fauna e flora.

A biogeografia foi uma das linhas de evidência que conduziram tanto Darwin como Wallace ao evolucionismo. As ilhas oceânicas, que nunca estiveram ligadas a um continente, têm um número reduzido de grupos e elevada percentagem de espécies endémicas, aparentadas com as do continente mais próximo — e não com as de ilhas de clima semelhante noutros oceanos, como seria de esperar se a adaptação ao ambiente bastasse para explicar a semelhança. Territórios isolados há muito tempo, como a Austrália, apresentam faunas originais (grande diversificação de marsupiais e ausência de muitos grupos de placentários), refletindo esse isolamento prolongado. A distribuição de grupos muito antigos é mundial, enquanto grupos surgidos depois da fragmentação da Pangeia se restringem a regiões específicas. Por fim, espécies muito semelhantes que ocupam habitats semelhantes em continentes diferentes sem serem aparentadas remetem para evolução convergente, e não para parentesco.

A seleção artificial como evidência

Seleção artificial — processo em que o ser humano escolhe deliberadamente, ao longo de sucessivas gerações, os indivíduos que se reproduzem, com base em características que lhe interessam, produzindo alterações acumuladas e hereditárias nas populações domesticadas.

A seleção artificial permite observar, em escalas de tempo humanas, aquilo que a seleção natural faz em escalas geológicas: a partir de variabilidade hereditária preexistente numa população, a atuação repetida de um agente selecionador produz descendência progressivamente diferente da população inicial. Todas as raças de cão doméstico descendem do lobo, e a couve-galega, os brócolos, a couve-flor, a couve-de-bruxelas e o repolho descendem todos da mesma espécie selvagem, Brassica oleracea, selecionada por partes diferentes da planta.

Darwin abriu A Origem das Espécies precisamente com este argumento, apoiado na sua experiência com criadores de pombos-correio: se a seleção humana produz, em poucas gerações, diferenças tão grandes que os exemplares seriam classificados como espécies distintas na natureza, então a seleção exercida pelo ambiente ao longo de um tempo incomparavelmente maior pode explicar a diversidade das espécies.

A diferença entre os dois processos está no agente e no critério de seleção, não no mecanismo: na seleção artificial o agente é o ser humano e o critério é a utilidade ou a preferência humana; na seleção natural o agente é o conjunto de pressões do ambiente e o critério é o sucesso reprodutivo diferencial. Em ambos os casos, a seleção não cria a variação — atua sobre variação já existente. É um erro pensar que o criador "inventa" o carácter, ou que a analogia de Darwin implica que a evolução é dirigida por um objetivo: a seleção natural não tem agente com intenção nem finalidade.

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