O sistema de Whittaker modificado
O sistema de Whittaker é um sistema de classificação dos seres vivos que os distribui por cinco reinos. Foi proposto por Robert Whittaker em 1969 e modificado em 1979, com a colaboração de Lynn Margulis — sendo esta versão modificada a referência habitualmente usada no ensino secundário português.
Sistema de Whittaker modificado — sistema de classificação dos seres vivos em cinco reinos (Monera, Protista, Fungi, Plantae e Animalia), definidos com base em três critérios simultâneos: o nível de organização celular, o modo de nutrição e a interação nos ecossistemas.
Evolução face aos sistemas anteriores
O sistema de Whittaker representa uma evolução relativamente aos sistemas de classificação que o antecederam: os sistemas de dois reinos, o reino Protista proposto por Haeckel em 1866, e o reino Monera proposto por Copeland em 1956. Duas inovações destacam-se: a introdução de um reino próprio para os fungos e a definição de três critérios de classificação a usar em simultâneo, em vez de um único caráter, como acontecia em sistemas mais simples.
Um sistema didático, entretanto superado
O sistema de Whittaker modificado foi, durante várias décadas, o sistema dominante no ensino da biologia. Atualmente, porém, a comunidade científica privilegia o sistema de três domínios, proposto por Woese. O sistema de Whittaker mantém-se sobretudo como referência didática, e não como o sistema cientificamente mais aceite.
Os três critérios de classificação
Whittaker distribuiu os seres vivos pelos cinco reinos com base em três critérios, aplicados em simultâneo:
- Nível de organização celular — tipo de célula (procariótica ou eucariótica) e número de células (unicelular ou multicelular).
- Modo de nutrição — autotrófico ou heterotrófico; quando heterotrófico, por ingestão ou por absorção.
- Interação nos ecossistemas — produtor, macroconsumidor ou microconsumidor/decompositor.
É a combinação destes três critérios, e não apenas um deles isoladamente, que distingue o sistema de Whittaker de sistemas artificiais mais simples, baseados num único caráter.
Os cinco reinos
Reino Monera
Reino Monera — reino que agrupa os organismos procariontes (sem núcleo individualizado) e unicelulares, autotróficos (fotossintéticos ou quimiossintéticos) ou heterotróficos por absorção, podendo desempenhar o papel de produtores ou de microconsumidores/decompositores.
Inclui as bactérias (eubactérias) e as arqueobactérias, agrupadas num único reino — uma agregação que o sistema de Woese viria depois a desfazer, ao reconhecer que estes dois grupos de procariontes são, a nível molecular, tão distintos entre si como o são de qualquer eucarionte. Exemplos: bactérias, como as cianobactérias, e arqueobactérias.
Reino Protista
Reino Protista — reino que agrupa organismos eucariontes, maioritariamente unicelulares (embora existam também alguns multicelulares simples), com fraca diferenciação celular, autotróficos ou heterotróficos.
Inclui os protozoários, heterotróficos, e as algas, autotróficas, atuando como produtores ou como consumidores em diferentes níveis dos ecossistemas. É considerado um reino heterogéneo do ponto de vista evolutivo, reunindo organismos de origens filogenéticas muito diversas apenas por partilharem o nível de organização eucariótica simples.
Reino Fungi
Reino Fungi — reino que agrupa organismos eucariontes, com fraca diferenciação celular, heterotróficos por absorção, atuando como microconsumidores/decompositores.
A criação de um reino próprio para os fungos — separando-os do reino Plantae, onde eram tradicionalmente incluídos por serem organismos imóveis — foi uma das principais inovações do sistema de Whittaker. Exemplos: leveduras, bolores (fungos filamentosos) e cogumelos.
Reino Plantae
Reino Plantae — reino que agrupa organismos eucariontes, multicelulares, com tecidos especializados, autotróficos por fotossíntese, desempenhando o papel de produtores.
Inclui desde plantas sem tecidos condutores diferenciados até plantas com flor, consoante o grau de especialização dos tecidos. Exemplos: musgos, fetos, coníferas e plantas com flor.
Reino Animalia
Reino Animalia — reino que agrupa organismos eucariontes, multicelulares, com tecidos especializados, heterotróficos por ingestão, desempenhando o papel de macroconsumidores.
Inclui invertebrados e vertebrados, unidos pelo critério da nutrição por ingestão e pelo nível de organização multicelular especializado. Exemplos: invertebrados, como moluscos e artrópodes, e vertebrados, como mamíferos e aves.
Síntese comparativa dos cinco reinos
| Reino | Tipo de célula | Organização | Nutrição | Papel no ecossistema |
|---|---|---|---|---|
| Monera | Procariótica | Unicelular | Autotrófica ou heterotrófica (absorção) | Produtor ou microconsumidor/decompositor |
| Protista | Eucariótica | Maioritariamente unicelular, fraca diferenciação | Autotrófica ou heterotrófica | Produtor ou consumidor |
| Fungi | Eucariótica | Fraca diferenciação celular | Heterotrófica (absorção) | Microconsumidor/decompositor |
| Plantae | Eucariótica | Multicelular, tecidos especializados | Autotrófica (fotossíntese) | Produtor |
| Animalia | Eucariótica | Multicelular, tecidos especializados | Heterotrófica (ingestão) | Macroconsumidor |
Vantagens e limitações do sistema
| Vantagens | Limitações |
|---|---|
| Maior especificidade do que os sistemas de dois reinos anteriores | Falta de clareza na fronteira entre algas e protozoários, dentro do reino Protista |
| Reconhecimento dos fungos como reino independente | Exclusão total dos vírus do sistema |
| Distinção clara entre procariontes e eucariontes | Não contempla associações simbióticas, como os líquenes |
| Framework flexível para incorporar novas descobertas | Agrupa organismos muito diversos, sobretudo dentro dos reinos Protista e Monera |