O problema da possibilidade do conhecimento
O ponto de partida da Filosofia do Conhecimento é uma pergunta aparentemente simples: será possível ao ser humano ter conhecimento verdadeiro e seguro sobre si mesmo e sobre o mundo? O problema surge porque as nossas duas principais vias de acesso à realidade — os sentidos e a razão — parecem, em certas condições, poder falhar ou enganar-nos.
Dois exemplos tornam este problema concreto:
- Ilusões óticas: um remo parcialmente mergulhado na água parece dobrado, embora não esteja. Se os sentidos podem enganar-nos assim, como confiar neles sempre?
- Argumento do sonho: como distinguir, com certeza absoluta, estar acordado de estar a sonhar? Se não há um critério seguro para o fazer, todo o conhecimento obtido pelos sentidos fica em causa.
Este é o problema central da unidade e o ponto de partida para duas grandes respostas filosóficas que serão estudadas a seguir: a resposta racionalista de Descartes e a resposta empirista de Hume.
Um erro comum é confundir este "desafio cético" com uma simples atitude de desconfiança do dia a dia (por exemplo, duvidar se um amigo diz a verdade). O desafio cético filosófico é mais radical: questiona a própria possibilidade e a fundamentação do conhecimento em geral.
O que é conhecer? A definição tripartida
Antes de perguntar se é possível conhecer, é preciso clarificar o que significa "conhecer" algo. A análise clássica desta questão é a definição tripartida de conhecimento.
Conhecimento (definição tripartida): um sujeito S sabe que P se e somente se (1) P é verdadeira, (2) S acredita que P, e (3) S está justificado em acreditar que P (crença verdadeira justificada, JTB).
Esta definição tem origem no diálogo Teeteto, de Platão, onde Sócrates mostra que a opinião verdadeira, por si só, não basta para constituir conhecimento. O exemplo clássico é o de um advogado que convence um júri de algo verdadeiro através de argumentos falaciosos: o júri fica com uma crença verdadeira, mas essa crença não está devidamente justificada, pelo que não constitui conhecimento.
É esta exigência de justificação que está implicitamente em jogo quando se pergunta "é possível conhecer?": o cético nega precisamente que consigamos satisfazer, de forma segura, essa condição.
Um erro frequente é tratar "crença verdadeira" como sinónimo de "conhecimento", ignorando a exigência de justificação. Por exemplo, alguém que acredita corretamente que vai chover apenas porque "teve um pressentimento" tem uma crença verdadeira, mas não justificada — logo, não tem conhecimento.
Opinião, crença e conhecimento
Antes de entrar nas teorias de Descartes e de Hume, importa distinguir três noções muitas vezes usadas como se fossem equivalentes: opinião, crença e conhecimento. Ter uma opinião ou uma crença sobre algo é apenas ter uma convicção subjetiva sobre esse assunto. O conhecimento é mais exigente: só existe quando essa convicção é, além disso, verdadeira e devidamente justificada.
Posições possíveis face ao problema: dogmatismo e ceticismo
Perante o desafio cético, é possível assumir diferentes posições sobre a possibilidade do conhecimento.
Ceticismo: posição filosófica segundo a qual não é possível ter conhecimento certo e seguro sobre um determinado domínio de proposições (ceticismo local) ou sobre qualquer proposição (ceticismo global); o cético nega que sabemos aquilo que pensamos saber.
O exemplo mais radical de ceticismo é o cenário do génio maligno de Descartes: um ser todo-poderoso que engana sistematicamente a mente, tornando duvidoso todo o conhecimento sensorial e até matemático.
Dogmatismo: posição que afirma ser possível atingir conhecimento certo e seguro, aceitando como válidos determinados critérios ou fontes de conhecimento sem os submeter a dúvida radical.
O dogmatismo não é uma posição única: pode ser ingénuo (aceitação não questionada do senso comum) ou racional/crítico (aceitação fundamentada, mas ainda sem dúvida radical prévia).
A tabela seguinte resume as diferenças entre três posições epistemológicas que é fácil confundir:
| Posição | Tese central |
|---|---|
| Dogmatismo | É possível atingir conhecimento certo e seguro, aceitando certos critérios sem dúvida radical. |
| Ceticismo | Não é possível ter conhecimento certo e seguro (num domínio ou em geral); nega-se a justificação absoluta das crenças. |
| Relativismo | A verdade é relativa a cada sujeito ou cultura. |
É importante não confundir estas posições entre si. O ceticismo filosófico não é o mesmo que a desconfiança pontual do dia a dia perante uma afirmação concreta — questiona a própria possibilidade de justificar de forma absoluta crenças que habitualmente consideramos garantidas. E o ceticismo também não é o mesmo que o relativismo: o relativismo afirma que a verdade é relativa a cada sujeito ou cultura, enquanto o ceticismo nega apenas que consigamos conhecer ou justificar com certeza, sem necessariamente negar que exista uma verdade objetiva.
O racionalismo de Descartes: fundamentar o conhecimento na razão
A dúvida metódica
Descartes propõe um método para responder ao desafio cético: duvidar deliberadamente de tudo o que não seja absolutamente indubitável, para encontrar um fundamento certo sobre o qual reconstruir todo o conhecimento.
Dúvida metódica: método filosófico que consiste em duvidar deliberadamente de tudo o que não seja absolutamente indubitável, para encontrar um fundamento certo sobre o qual reconstruir o conhecimento.
Esta dúvida avança em três graus crescentes de radicalidade:
- Dúvida dos sentidos — os sentidos por vezes enganam (o remo que parece dobrado na água), logo não são totalmente fiáveis.
- Argumento do sonho — não há critério seguro para distinguir com certeza estar acordado de estar a sonhar.
- Hipótese do génio maligno — mesmo verdades matemáticas simples (como 2+2=4) poderiam, em princípio, ser ilusórias se um ser todo-poderoso e enganador manipulasse sistematicamente a mente.
É fundamental não confundir esta dúvida com um ceticismo genuíno ou final: Descartes duvida instrumentalmente, como um meio para chegar a uma certeza, e não para permanecer na dúvida.
O cogito: "penso, logo existo"
Ao aplicar a dúvida metódica a tudo — sentidos, mundo exterior, até verdades matemáticas —, Descartes encontra algo que resiste a qualquer dúvida: o próprio ato de duvidar/pensar implica necessariamente a existência de quem duvida/pensa.
Cogito: primeira verdade indubitável alcançada por Descartes ("penso, logo existo"): mesmo que tudo o resto seja posto em causa, o próprio ato de duvidar/pensar implica necessariamente a existência de quem duvida/pensa.
Um ponto importante, segundo a literatura académica: o cogito não é uma prova formal, dedutiva, da existência (como um silogismo do tipo "tudo o que pensa existe; eu penso; logo existo"). É antes entendido como uma intuição imediata da própria existência no ato de pensar. O papel do cogito na argumentação cartesiana não é apenas "provar que existo", mas sobretudo estabelecer que a essência do sujeito é ser uma "coisa pensante" (res cogitans).
O critério de clareza e distinção
Depois de estabelecer o cogito como primeira certeza, Descartes procura generalizar aquilo que a tornou indubitável: a forma como essa ideia é percebida pela mente.
Clareza e distinção: critério cartesiano segundo o qual uma ideia é verdadeira quando é percebida de forma clara (presente e acessível a uma mente atenta) e distinta (nitidamente separada de todas as outras perceções), a ponto de não ser possível deixar de lhe assentir.
Este critério é a resposta racionalista ao desafio cético: é através dele que o conhecimento a priori (independente da experiência) pode, em princípio, ser validado.
Deus como garante da verdade
Para resolver definitivamente a hipótese do génio maligno, Descartes prova a existência de Deus e argumenta que um Deus perfeito e não-enganador garante que aquilo que é percebido clara e distintamente é, de facto, verdadeiro.
Segundo a literatura académica, o critério de clareza e distinção já é apresentado por Descartes como certo antes da prova da existência de Deus, evitando assim um círculo vicioso completo (problema conhecido como "círculo cartesiano"). O papel de Deus é sobretudo garantir a fiabilidade geral das faculdades cognitivas e resolver dúvidas persistentes sobre o mundo exterior — e não fundamentar, à partida, toda e qualquer certeza, incluindo a do cogito.
O empirismo de Hume: fundamentar o conhecimento na experiência
Impressões e ideias
Hume propõe uma resposta diferente ao desafio cético: para ele, todo o conhecimento genuíno tem, em última análise, origem na experiência sensorial, e não em ideias inatas ou puramente racionais.
Impressões: dados imediatos e vívidos dos sentidos ou de estados internos (incluindo emoções e desejos — impressões de reflexão).
Ideias: cópias menos vívidas das impressões, usadas na memória e no pensamento.
O "princípio de cópia" estabelece que toda ideia simples deriva de uma impressão simples correspondente. Por exemplo, a dor sentida ao tocar numa superfície quente é uma impressão; a recordação dessa dor mais tarde é uma ideia.
O garfo de Hume
Hume distingue dois tipos de conhecimento, distinção conhecida como "garfo de Hume":
Relações de ideias: verdades a priori, necessárias e analíticas, cuja negação é contraditória (exemplo: "2+2=4").
Questões de facto: verdades a posteriori, contingentes e sintéticas, conhecidas através da experiência (exemplo: "os corvos são negros").
Esta distinção é a base da epistemologia empirista e prepara o terreno para o problema seguinte, já que as questões de facto dependem, segundo Hume, da relação de causa e efeito — a qual não pode ser conhecida a priori.
O problema da indução
Problema da indução: não existe fundamentação racional (nem por intuição, nem por demonstração, nem por experiência direta) para o princípio segundo o qual "o futuro se assemelhará ao passado", princípio do qual depende toda a inferência causal e indutiva; a crença nesse princípio assenta, segundo Hume, no hábito/costume, e não na razão.
Por exemplo, o facto de o sol ter nascido todos os dias até hoje não fornece, segundo Hume, uma garantia racional (dedutiva) de que nascerá amanhã. Isto mostra que mesmo o conhecimento empírico mais básico carece de justificação racional definitiva.
Um erro comum é pensar que Hume nega que façamos inferências indutivas. Não é isso: o que ele nega é que exista uma justificação racional para essas inferências — continuaremos sempre a fazê-las, por hábito.
O ceticismo mitigado de Hume
Face à conclusão cética a que a sua própria análise conduz (sobre a indução, o mundo exterior, a causalidade), Hume não abandona toda a confiança na razão.
Ceticismo mitigado (consequente): posição final de Hume que rejeita o ceticismo antecedente (duvidar de tudo antes de qualquer investigação, por ser autodestrutivo) e reconhece os limites da razão, mas aceita, por hábito e natureza humana, um grau de confiança moderado nas faculdades cognitivas.
Esta posição resolve a tensão entre o ceticismo pervasivo da sua análise e a ambição de Hume de construir uma "ciência do homem": não se deve suspender toda a crença, mas usar a razão com humildade dentro de limites reconhecidos.
Confronto entre racionalismo e empirismo
Descartes e Hume representam as duas grandes respostas filosóficas ao problema da possibilidade do conhecimento estudadas nesta unidade.
| Dimensão | Descartes (racionalismo) | Hume (empirismo) |
|---|---|---|
| Origem do conhecimento | A razão (a priori) | A experiência (a posteriori) |
| Critério de verdade | Clareza e distinção | Impressões e o seu princípio de cópia |
| Método de partida | Dúvida metódica (sentidos, sonho, génio maligno) | Análise das perceções (impressões e ideias) |
| Forma de ultrapassar/gerir o ceticismo | Deus como garante da verdade das ideias claras e distintas | Ceticismo mitigado: confiança moderada por hábito, dentro dos limites da razão |
Apesar das diferenças de método e de critério de verdade, é um erro assumir que as duas posições chegam a conclusões totalmente opostas quanto à possibilidade do conhecimento: ambas reconhecem limites que a razão, por si só, não consegue ultrapassar por completo — Descartes precisa de recorrer a Deus para ultrapassar a dúvida radical; Hume aceita apenas um conhecimento prático, apoiado no hábito, e não plenamente racionalizado.